O termo "distanásia" é pouco conhecido e utilizado na área da saúde, ao contrário da eutanásia, amplamente discutido e estampado nos noticiários e jornais, apesar de sem dúvida, ser uma opção bem menos praticada do que a "distanásia" nas nossas instituições de saúde, nomeadamente nas unidades de cuidados intensivos, as modernas catedrais do sofrimento humano
Distanásia é etimologicamente o contrário da eutanásia. Trata-se de um neologismo de origem grega. O prefixo grego dis significa "afastamento", e “thánatos”, morte, donde a distanásia significa prolongamento exagerado da vida de um paciente, referindo-se sempre ao doente terminal, perante a eminência de uma morte inevitável.
Outra definição, define distanásia como: "Morte lenta, ansiosa e com muito sofrimento". O termo também pode ser empregado como sinónimo de tratamento inútil.
Trata-se, em suma, da atitude médica que, visando salvar a vida do paciente terminal, atrasa o mais possível o momento da sua morte, usando para isso todos os meios, proporcionados ou não, mesmo que não haja esperança alguma de cura, e ainda que isso signifique infligir ao moribundo sofrimentos adicionais, que, obviamente, não conseguirão afastar a inevitável morte, mas apenas atrasá-la horas, dias ou meses. O que quer dizer que não se prolonga a vida propriamente dita, mas o processo de morrer. No mundo europeu fala-se de "obstinação terapêutica", nos Estados Unidos de "futilidade médica" (medical utility).
Desde a antiguidade, nomeadamente com Platão, Sócrates, e Aristóteles, a vida era considerada como uma aprendizagem da morte, sendo uma das funções da filosofia preparar-nos para uma «boa morte». Supunha-se que aquele que sabia morrer, tinha aprendido a viver e assim a vida e a morte iluminavam-se reciprocamente. Mas não é preciso ir tão longe: basta-nos olhar para a primeira metade do século XX, para constatar que hoje em dia já não se morre como antigamente. Dantes (ontem, ainda) morria-se em casa. Era a morte domada. O ser humano sabia quando ia morrer pela presença de avisos, sinais ou convicções internas. A morte era esperada no leito, e era autorizada pela presença de parentes, vizinhos, amigos e até crianças. Havia uma aceitação dos ritos, que eram compridos sem dramatização. Era algo familiar, próximo, em que os que a aguardavam – doentes e familiares – se conheciam muito bem e partilhavam valores. Assim podiam dar ao moribundo todo o conforto – nos seus variados aspectos – que alguém no limiar da vida, tanto necessita.
Pelo contrário, hoje, praticamente a quase totalidade das mortes ocorre no hospital. A hospitalização, as unidades de cuidados intensivos e os transplantes, alteraram radicalmente o conceito de morte e de morrer. O desenvolvimento da tecnologia, as técnicas e procedimentos que dão aos profissionais de saúde novos poderes para retardar ao máximo a hora da morte, levaram-nos a uma interpretação errónea de que a morte pode, quase sempre ser adiada.
E quanto mais de ponta for a instituição de saúde, tanto mais possível e sofisticada pode ser a Distanásia, embora, seja importante assinalar que nos hospitais dos países mais desenvolvidos existe uma consciência bem mais lúcida de limite, ao nível do investimento tecnológico na fase final da vida. Na cabeceira das camas dos doentes irrecuperáveis constam indicações tais como NR (não ressuscitar), pedidas pelos próprios doentes quando estão (ou estavam) ainda lúcidos.
À primeira vista, poderíamos ingenuamente pensar que a morte nas mãos da moderna tecnologia médica seria um evento menos sofrido, e mais digno do que o foi na antiguidade: não temos maior conhecimento científico, analgésicos poderosos, que aumentam a possibilidade de controlar a dor, máquinas mais sofisticadas, capazes de substituir órgãos que entram em disfuncionamento?
Não temos maior conhecimento psicológico, um instrumento precioso no sentido de aliviar as ansiedades e o sofrimento de uma morte antecipada?
Não temos exactamente tudo, o que necessitamos para tornar realidade, a possibilidade de uma morte digna e em paz?
Não temos exactamente tudo, o que necessitamos para tornar realidade, a possibilidade de uma morte digna e em paz?
A resposta pode ser sim e não. Sim, temos muito mais conhecimento que tínhamos anteriormente. Mas não, este conhecimento não tornou a morte um evento digno. O conhecimento científico e tecnológico serviram também para tornar a nossa morte mais problemática, mais difícil de prever, mais difícil ainda de lidar, fonte de complicados dilemas éticos e escolhas dificílimas, geradoras de angústia, ambivalência e incertezas.
A medicina cujo objectivo é a busca da saúde, procurando aumentar o tempo de vida e a sua qualidade, fomentou implicitamente um culto idólatra da vida, organizando a sua fase terminal como uma luta a todo o custo contra a morte e alimentando a tendência para prolongar a vida em condições inaceitáveis.
Esta idolatria da vida ganha forma na convicção de que a inabilidade para curar ou evitar a morte, é uma falha da medicina moderna. A morte é admitida com relutância, encarada, a barreira que lhe permite para atingir os objectivos.
A falácia desta lógica é que a responsabilidade de curar termina quando os tratamentos se esgotam.
É necessário que se reconheça que em alguns casos se chega a um ponto em todas as vidas, em que nada pode ser feito em benefício dos doentes, excepto mantê-los confortáveis e sem dores porque no fim, a morte acaba por chegar e vencer.
Convém a todos os profissionais de saúde cuja formação é totalmente virada para a manutenção e preservação da vida a qualquer custo, reflectir sobre o sofrimento que inutilmente se acrescenta a uma agonia programada por uma terapêutica já inútil e somente utilizada para cumprir o dogma médico de "fazer tudo o que for possível para conservar a vida" - o qual, interiorizado de maneira acrítica por alguns, é aceite como princípio ético que não exige maior discussão e normalização. Se a morte faz parte do ciclo da vida humana, então deveria ser entendida e esperada como o último resultado deste esforço, implícito e inerente desde o princípio.
E quando nos esquecemos disso, acabamos por cair na tecnolatria e na absolutização da vida biológica pura e simples. É a obstinação terapêutica adiando o inevitável, que apenas acrescenta sofrimento e vida quantitativa, sacrificando a dignidade com que nos assiste na morte.
E quando nos esquecemos disso, acabamos por cair na tecnolatria e na absolutização da vida biológica pura e simples. É a obstinação terapêutica adiando o inevitável, que apenas acrescenta sofrimento e vida quantitativa, sacrificando a dignidade com que nos assiste na morte.
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