Às vezes, em sítios inesperados, passam pessoas inesperadas na nossa vida que inesperadamente nos marcam. Nem sempre por uma atitude grandiosa, ou por um gesto elevado, mas por pequenas coisas, pequenas palavras, pequenas histórias normais.
Foi o que aconteceu ontem na minha vida, às três da manhã (imagine-se), no hospital onde trabalho. Seja a que horas for que um doente saia da sala de operações, assim que, no recobro, a enfermeira considerar que ele está “bem”, calmo e acordado, manda descer a família para o ver e poder ficar descansada.
O doente que acabou a cirurgia, eram quase três da manhã, tinha 79 anos mas parecia mais velho, magro, com um aspecto debilitado e alguma dificuldade na fala. Quando a mulher dele desceu para o ver, confesso que achei que era a filha. Era uma senhora de 67 anos, e parecia menos. Aproximou-se do doente e começou a falar com ele com um carinho imenso, a dar-lhe beijinhos e festinhas, mas ainda assim continuei a achar que podia ser filha dele.
Eu, que andava por ali, a dar medicação, a fazer medições e registos e a responder às perguntas ansiosas sobre a cirurgia, acabei por ficar apoiada do outro lado da cama, a conversar com ela. Não me atrevi a perguntar qual a relação de parentesco entre os dois mas ela acabou por ma revelar. E começou assim, dirigindo-se a ele:
— Tivemos trinta anos muito bons, não foi António? Fizemos tantas coisas juntos, gozámos tanto a vida...
O doente ia acenando que sim e respondendo no mesmo tom de ternura com que ela falava com ele.
— Nunca casámos... nem vamos casar agora, não é?
Achei que aquela declaração/pergunta não era bem para ele, era também para mim, para eu ficar elucidada. Se calhar ela percebeu que eu estava curiosa. Ou provavelmente não foi a primeira vez que a teve que explicar. E como uma das coisas que mais gosto na minha profissão são as relações humanas que estabelecemos nem que seja por alguns minutos e a possibilidade de, ao conversarmos e brincarmos, podermos tranquilizar um pouco as pessoas que estão numa situação tão fragilizada, perguntei porquê. Ela explicou-me o que todas as pessoas que não querem casar explicam: que acham que um papel pode estragar tudo.
Não me competia discutir o assunto e aliás nem teria tido oportunidade de o fazer porque ela já me estava a contar a história dos dois.
Ambos tinham sido casados antes de se encontrarem, casamentos problemáticos, dos quais tiveram dois filhos cada um. Quando se conheceram, ambos deram devagar os passos que os conduziram um para o outro. Ele bastante mais velho que ela, uma pessoa calma e tranquila “mas um galã, com uma namorada em cada cidade”, ela mais nova, alegre e divertida mas de “pêlo na venta”. O oposto um do outro, mas a verdade é que os opostos se completam.
Acabaram por ir viver juntos com a advertência dela que “Se eu desconfio sequer que há mais alguma na tua vida, nesse mesmo momento estás com as malas à porta! “.
Vinte e nove anos e nenhuma “outra na vida dele” mais tarde, há mais ou menos um ano, ele teve um AVC grave, do qual conseguiu recuperar muitas das funções uma vez que não falava nem andava e hoje, com alguma dificuldade, é certo, mas faz as duas coisas.
Até aqui a história não tem nada de especial, certo?
Especial – pelo menos eu achei – foi o que ela me disse a seguir:
— Sabe? – perguntou – nós os dois tivemos uma vida abençoada. Claro que tivemos os “nossos momentos, as nossas birras” mas sempre nos demos muito bem, e criámos, para além do amor uma enorme amizade. E sabe?, fizemos tudo o que queríamos! Não deixámos nada por fazer, nem deixámos nada para amanhã! Saber que aproveitámos tudo o que se nos deparou, desfrutámos de todos os momentos, hoje que o António está assim, dá-me uma grande tranquilidade, uma grande paz.
Não tenho a certeza da razão porque estas palavras, ditas daquela forma simples e sem pretensões, me tocaram. Talvez porque nós – os outros, a maior parte das pessoas – deixamos tanta coisa para amanhã, não conseguimos gozar hoje e agora, sempre a pensar no que pode acontecer amanhã.
Um amanhã que pode virar a nossa vida do avesso e fazer-nos olhar para trás com pena ou remorso de não termos gozado aquela boa fase, dia, hora ou minutos que a vida nos ofereceu “de graça”.
Um amanhã do qual podemos nem sequer despertar!
Agora, a escrever estas palavras, surgiu-me a ideia que a razão pela qual as palavras dela não passaram por mim sem deixar marcas, foi... um bocadinho de inveja!

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