Ontem voltei a ver, na televisão, o filme «De quem é a vida afinal?».
Nele, um escultor, após um acidente de trãnsito fica paralisado do pescoço para baixo e, com graves lesões renais, é obrigado a fazer todos os dias, diálise. Sabendo que no dia em que tiver alta morrerá, e porque o médico que o segue, se recusa a dar-lha, empreende uma batalha jurídica nesse sentido. Independentemente da sua razão,impressionou-me o discurso que ele faz ao tentar convencer o juiz que tem direito a dispor da sua vida e que passo a transcrever:
» Sinto-me profundamente ultrajado por vocês (pessoal da saúde) sem me conhecerem, terem o poder de me condenar a uma vida de tormento porque não podem ver a minha dor, não há sangue, não há choros, não vêm o que não está à vista…»
Tal como uma moeda tem dois lados, o progresso da ciência, se tem aspectos extremamente positivos, tem alguns verdadeiramente assustadores nomeadamente no que diz respeito à medicina em que surgem problemas éticos muito difíceis de resolver.
Um deles tem a ver com o direito a morrer.
A minha opinião pessoal sobre o assunto não cabe aqui, mas ainda estou em dúvida sobre o nome que hei-de dar ao acto que este personagem, ao obrigar os médicos a darem-lhe alta, está a praticar: suicídio? Eutanásia? E não será que o médico ao impedi-lo de sair do hospital – pelas mais nobres razões – estará a praticar o que hoje em dia se chama Distanásia que, embora seja praticada muito mais frequentemente do que a eutanásia, poucas pessoas sabem o que significa?
A distanásia (do grego “dis”, mal, algo mal feito, e “thánatos”, morte), consiste em atrasar o mais possível o momento da morte usando todos os meios ainda que não haja esperança alguma de cura, e ainda que isso signifique infligir ao moribundo sofrimentos adicionais que, obviamente, não conseguirão afastar a inevitável morte, mas apenas atrasá-la umas horas ou uns dias em condições deploráveis para o doente, como aconteceu em casos famosos como o de Truman, Franco, Tito, Hirohito e Tancredo Neves.
Basta pensarmos um bocadinho no assunto para constatar que hoje em dia há mil e uma técnicas e procedimentos que dão aos profissionais de saúde o poder de retardar quase ad eternum a morte dos seus doentes.
Preocupamo-nos tanto em preservar e/ou manter a vida dos nossos doentes que muitas vezes, talvez mesmo a maior parte delas, não conseguimos saber quando devemos parar, mesmo contra a vontade expressa desses mesmos doentes.
É evidente que é extremamente difícil saber qual é o tempo certo, o momento correcto, para pura e simplesmente não fazer mais nada e deixar a natureza seguir o seu curso, deixando o doente morrer em paz com a dignidade que qualquer pessoa merece.
Mas há de facto uma hora certa, uma hora em que é necessário desistir, aceitar o que é inevitável. Esse momento, para o qual também hoje em dia já se arranjou um palavra – ortotanásia – é teoricamente o meio termo entre a apressada eutanásia e a obstinada distanásia.
No entanto, para todos os profissionais de saúde, cuja formação é totalmente virada para a manutenção e preservação da vida a qualquer custo – ou quase - a morte constitui uma derrota pessoal, quase uma afronta a toda a nossa sapiência e aos esforços que, ao longo dos tempos,foram sendo feitos para termos cada vez mais meios de diagnóstico, mais máquinas, mais medicamentos, que impossibilitem essa bruxa horrorosa toda vestida de pretode chegar perto dos nossos doentes e os levar.
E apesar de lidarmos com a morte, ous com a possibilidade dela, todos os dias, esta dá-nos a medida da nossa impotência, e acima de tudo da nossa fragilidade ao lidarmos com ela. Porque nas nossas escolas nos ensinam muitas coisas, mas entre elas não está a capacidade de conviver com a angústia dos que inevitavelmente vão morrer.
É provavelmente esta incapacidade que faz com que nós técnicos de saúde, nos couracemos na «insensibilidade» de que se queixam os doentes, supondo que é a única forma de nos protegermos do sofrimento de alguém que está ao nosso lado e, pior, ao nosso cuidado, impedindo-nos de os ajudar a mitigar as suas dores, nem que seja deixando de fingir que não ouvimos cada vez que algum doente diz qualquer coisa mais embaraçosa como «’Não quero mais viver assim» .
É provavelmente esta incapacidade – que é extensível a todas as pessoas – que nos impede de enfrentar em última análise, que nós próprios não somos eternos – como julgamos no dia a dia - e que um dia a morte – transformada num tabu na sociedade moderna – também nos baterá à porta.
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